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Brasil

Dado Villa-Lobos Transita Entre o Estoicismo e o Legado da Legião Urbana em Novo Álbum Solo

Prestes a lançar seu quarto disco de estúdio, guitarrista reflete sobre os 30 anos de imbróglio jurídico pela marca da banda, a pausa na parceria com Marcelo Bonfá e o lançamento de "O Que Você Quiser".

Publicada em 26/05/2026 às 12:49h - 738 visualizações Blog Litoral, com informações do Estadão Conteúdo

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Dado Villa-Lobos Transita Entre o Estoicismo e o Legado da Legião Urbana em Novo Álbum Solo
Dado Villa-Lobos foi guitarrista do Legião Urbana  (Foto: Divulgação/@pix2films)

A canção "Que País É Este", escrita por Renato Russo (1960-1996) em 1978, no ocaso do governo de Ernesto Geisel — ano em que o general da ditadura militar revogou os atos institucionais —, preservou seu caráter de urgência quase dez anos depois. Quando foi oficialmente lançada pela Legião Urbana, em 1987, o Brasil atravessava uma grave crise política e a superinflação impedia que os trabalhadores tivessem condições razoáveis de tocar a vida.

 

Para Dado Villa-Lobos, guitarrista, compositor e parceiro de Renato na banda, a música segue assustadoramente atual em 2026, assim como boa parte da obra do conjunto de Brasília. Influenciado pelo pós-punk de bandas como U2 e Joy Division, o grupo encapsulou as agruras do País em letras poéticas e mudou definitivamente o panorama do rock nacional. Faixas como "Eduardo e Mônica" e "Faroeste Caboclo", já enraizadas no imaginário popular brasileiro, transcenderam a música e foram até transformadas em produções cinematográficas.

 

Quase três décadas após a morte do vocalista por decorrência de complicações da Aids, Villa-Lobos parece preparado para virar a página e dedicar-se plenamente à sua carreira solo.

 

O Fim de um Ciclo na Estrada e o Impasse Jurídico Em pauta

 

O primeiro motivo para essa transição é que sua parceria com o baterista e membro fundador Marcelo Bonfá, com quem realizava turnês comemorativas desde 2015, caminha para uma cisão. A dupla resolveu "dar um tempo" e vai se reunir pontualmente em agosto apenas para executar na íntegra o clássico disco "Dois" (1986) no festival C6 Fest, em um projeto de celebração do rock brasileiro.

 

Dado, inclusive, lamenta abertamente que o imbróglio judicial envolvendo o uso da marca Legião Urbana continue completamente "empacado". Os dois ex-integrantes foram autorizados pela 4ª Turma do Superior Tribunal de Justiça (STJ) a utilizar o nome em suas atividades profissionais. O tribunal negou o recurso da empresa Legião Urbana Produções Artísticas, representada por Giuliano Manfredini, filho e herdeiro de Renato Russo, que pedia a exclusividade dos direitos. No entanto, a ministra Isabel Gallotti pediu vista do processo há mais de um ano, e o caso ainda não retornou à pauta de votação.

 

'O Que Você Quiser': Um Trabalho Solar Pós-Pandemia

 

O segundo motivo do foco solo é que o sobrinho-neto de Heitor Villa-Lobos, hoje aos 60 anos, está lançando o seu 4º álbum de estúdio, que quebra um hiato de quase dez anos desde o lançamento de "Exit" (2017). Intitulado "O Que Você Quiser", o trabalho chega às plataformas de streaming no dia 28 de maio. No repertório, o músico contrapõe a obscuridade do isolamento social da pandemia da Covid-19 com momentos solares, demonstrando uma postura assumidamente "estoica".

 

O álbum traz colaborações de peso do cenário nacional. Na faixa "Dois Brilhantes", música inspirada diretamente no nascimento de seus netos gêmeos, há a participação do cantor Tiago Iorc. Já a lírica de "Adeus Bem-vinda" conta com contribuições dos renomados Humberto Gessinger (Engenheiros do Hawaii) e Herbert Vianna (Os Paralamas do Sucesso).

 

Na entrevista a seguir, Dado reflete sobre o novo trabalho, analisa a perda de espaço do rock na cultura moderna e desconstrói mitos sobre o passado da maior banda do rock brasileiro.

 

Entrevista Com Dado Villa-Lobos: Memórias, Desafios e Desmistificações

 

O nome do álbum é 'O que você quiser'. Então, o que você quis que esse álbum representasse na sua carreira?

 

Dado Villa-Lobos: É um conjunto de novas canções. É um grande desafio ter que se mover hoje, com essa questão do mercado, de como você vai se colocar à frente dessa loucura de streamings e de lançamentos semanais, algo que não é muito a minha praia. Eu sou das antigas, então fomos fazendo canções, temas que eu tinha, e trocando ideias com pessoas próximas, tipo o Fausto Fawcett. Havia aquela loucura da pandemia, de resiliência, de determinação. Tudo foi feito ao longo desse momento conturbado, em que tinha um maluco mostrando cloroquina para uma ema, e tinha um general mandando oxigênio para Macapá, ao invés de Manaus. O disco pontua muita coisa daquele momento obscuro, mas também apareceram músicas solares, como "Dois Brilhantes", falando sobre bebês, afinal, estou cercado de netos.

 

Na faixa 'Monsanto', uma frase se destaca: 'Meu coração partiu para o êxtase'. O que é o êxtase para você?

 

Dado: O êxtase é você se livrar dos problemas cotidianos desse mundo conturbado, essa coisa caótica das nossas metrópoles e do Brasil, que é esse abismo que nunca chega ao fim. O êxtase é você se livrar disso tudo. Então, de repente, há um pouco de estoicismo. O êxtase também é estar com a família e os netos, ter os boletos pagos. Essa música era do Fausto Fawcett e fiz um tema instrumental meio louco para ela. Vi a definição de arte no dicionário e incluí algumas palavras na música, como 'magia', 'enganação'. O êxtase é chegar no caminho onde você procurou chegar.

 

Pensando na rivalidade simbólica que existia entre as bandas dos anos 80, seria impensável, naquela época, uma parceria com Humberto Gessinger. O Herbert Vianna eu sei que você conhece desde a infância, mas o Humberto não. O que mudou?

 

Dado: Na verdade, com os Engenheiros do Hawaii não havia essa dinâmica de competição. A gente até se cutucava de vez em quando, mas a realidade é que quando eles lançaram o primeiro disco deles, Longe Demais das Capitais, eu passei a admirar o Humberto, um cara resiliente que as pessoas massacraram. Com Os Paralamas do Sucesso havia uma rivalidade no sentido de que uma banda motivava a outra. Quando saímos de Brasília e chegamos no Rio de Janeiro, toda a galera do Rio, inclusive o Herbert, nos chamava de 'jacus de Brasília' (risos).

 

O Peso do Sobrenome e as Engrenagens do "Processo"

 

Inevitavelmente seu sobrenome sempre chama a atenção. Em que momento você entendeu o peso de Villa-Lobos?

 

Dado: Foi quando meu pai, que era diplomata, foi transferido para a França. Eu fiquei lá dos 10 aos 14 anos. E no colégio me chamavam pelo sobrenome. Na França, todos os professores sabem quem é Heitor Villa-Lobos, porque ele estudou lá nos anos 1920. E, curiosamente, aqui no Brasil eu sou confundido com os irmãos Villas-Bôas, os indigenistas. Poucas pessoas conhecem o maestro por aqui.

 

Nos últimos anos, a Legião Urbana apareceu bastante fora das páginas de cultura, devido ao processo envolvendo o uso da marca. Há algo que não está resolvido sobre o legado da banda?

 

Dado: Me incomoda perceber que a banda durou 13 anos e os processos já duram 30. A parada nunca acaba, está empacada. Ganhamos no STJ, mas o herdeiro recorreu e aí uma ministra sentou em cima do processo. Esse é o Brasil. Parece que entramos no livro O Processo, de Franz Kafka.

 

Desmistificando Renato Russo: Simplicidade e Perda da Energia Punk

 

Neste ano, completam-se 30 anos da morte do Renato Russo. Qual é o maior equívoco que as pessoas cometem ao falar dele?

 

Dado: O equívoco é de talvez achar que ele fosse um cara supercabeça, supergenial e superproativo, no sentido de que ele lia muito, escrevia muito, tocava muito... Era um pouco disso tudo, mas não era esse cara todo aí. Ele era um cara que, aos fins de semana, comia cachorro-quente e jogava Master conosco. O tom mais humano e sem filtros não surpreende quem leu minha autobiografia, Dado Villa-Lobos: Memórias de um Legionário (2015), onde divido a saudade do cantor com relatos de seus 'chiliques' e atitudes egoístas.

 

Você quer dizer que havia uma simplicidade ali?

 

Dado: Sim. Eu acho que o grande atributo dele foi acreditar nas pessoas que estavam em volta dele, que eram mais jovens, e fazer um projeto de banda de rock acontecer.

 

Existe alguma música da Legião que as pessoas tenham interpretado errado ou que te incomode?

 

Dado: Não sei, eu acho que tinha umas músicas que eram chatinhas. A mim me incomodava em determinado momento que ele só usava o mesmo timbre no sintetizador Juno-106. Às vezes a música poderia ir para outro caminho, mas não ia. Nós éramos versados em punk rock, depois a Legião virou uma banda pós-punk, e aí depois virou uma banda meio sem selo, com aquela coisa fixa do Juno-106.

 

Sente que perderam aquela energia punk do começo?

 

Dado: Sim, perdemos. A gente oscilava. E nessas oscilações para baixo poderiam vir as críticas. Algo como "Os Anjos", uma coisa ingenuazinha.

 

O Panorama Atual e o Futuro do Rock em 2026

 

O que a Legião conseguiu captar sobre o Brasil dos anos 80 que permanece atual hoje em 2026, seja por bem ou por mal?

 

Dado: Gravamos uma música de 1978 que chama-se "Que País É Este". Ela é atual porque esta p**** de País não mudou. "Nas favelas, no Senado / Sujeira pra todo lado / Ninguém respeita a constituição". Tudo igualzinho, se não pior. Por outro lado, há músicas como "Ainda É Cedo", que é uma história de amor, uma mensagem universal, que é atual por outro motivo.

 

O rock perdeu espaço na cultura moderna ou ele depende de agentes específicos para seguir relevante?

 

Dado: Perdeu o espaço, sim. Você não vai encontrar no top 50 ou 100 do Spotify o que se chama de rock, com a atitude de rock. O Foo Fighters já tem mais de 30 anos. A última grande banda para mim foi o Radiohead. Meu algoritmo só me manda coisas antigas. Sobre o projeto do C6 Fest, não tive como negar o convite da produtora Monique Gardenberg e essa ideia de executar discos icônicos.

 

Mas esse show de agosto é uma exceção, pois a parceria contínua com o Bonfá acabou, correto?

 

Dado: É uma exceção. Estamos dando um tempo. Fizemos um ciclo de comemorações por dez anos que terminamos no ano passado. A estrada realmente é cruel. Não é uma coisa fácil para mim estar sistematicamente envolvido em um projeto grande. É bacana, mas é extremamente puxado. Agora estou pegando mais leve.




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