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Cinco anos da primeira vacina contra a covid-19 no Brasil: esperança, ciência e vidas salvas

Em 17 de janeiro de 2021, a enfermeira Mônica Calazans se tornou símbolo de um marco histórico no combate à pandemia

Publicada em 17/01/26 às 18:33h - 805 visualizações

por Litoral FM Recife, com informações da Agência Brasil


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Vacinação contra Covid  (Foto: Litoral FM Recife )

Há exatamente cinco anos, o Brasil dava um passo decisivo para sair de um dos períodos mais sombrios de sua história recente. Em 17 de janeiro de 2021, poucas horas após a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) autorizar o uso emergencial de duas vacinas contra a covid-19, a enfermeira Mônica Calazans se tornou a primeira brasileira vacinada contra a doença.


O gesto simples — uma injeção no braço e um punho cerrado erguido — transformou-se em um símbolo de esperança, após meses de medo, luto e colapso do sistema de saúde.


Quem é Mônica Calazans e por que ela foi a primeira vacinada

Mônica foi escolhida para aquele momento histórico por ter participado dos ensaios clínicos da CoronaVac, realizados no fim de 2020 para comprovar a segurança e a eficácia do imunizante desenvolvido pela farmacêutica chinesa Sinovac, em parceria com o Instituto Butantan.


Na época, ela atuava no Instituto de Infectologia Emílio Ribas, em São Paulo — referência nacional em doenças infectocontagiosas — que atendeu mais de 40 mil pacientes durante a pandemia.


De plantão naquele domingo, Mônica foi chamada às pressas para a cerimônia oficial. Só ao chegar ao local soube que seria a primeira a receber a vacina.


“Eu chorava muito. A gente estava vivendo um momento traumatizante. Meu irmão estava com covid naquela época. Mas também chorei de emoção, porque a ciência estava dando um passo importante para acabar com aquela tragédia”, relembrou.


O início da vacinação no Brasil

A campanha nacional de vacinação começou oficialmente no dia 18 de janeiro de 2021, com a distribuição de um primeiro lote de 6 milhões de doses da CoronaVac, importadas da China pelo Instituto Butantan.


Poucos dias depois, em 23 de janeiro, chegaram ao país as primeiras 2 milhões de doses da vacina Oxford/AstraZeneca, trazidas da Índia pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). Posteriormente, ambas as instituições passaram a processar e produzir os imunizantes em solo brasileiro, o que ampliou significativamente a oferta.


Prioridades e desafios no pico da pandemia

Diante da escassez inicial de doses, o Brasil adotou uma estratégia de priorização dos grupos mais vulneráveis, começando por:

  • Trabalhadores da saúde da linha de frente
  • Idosos institucionalizados
  • Pessoas com deficiência em abrigos
  • Povos indígenas


Esse período coincidiu com o pico da variante Gama, considerada mais agressiva e letal, o que pressionou ainda mais o sistema de saúde.


Em grandes cidades, como o Rio de Janeiro, pessoas entre 60 e 70 anos só começaram a ser vacinadas entre março e abril de 2021, evidenciando o ritmo lento da imunização nos primeiros meses.


Resultados rápidos: menos internações e mortes

Apesar das dificuldades, os efeitos positivos da vacinação não demoraram a aparecer. Dados do Observatório Covid-19 Brasil indicam que, a partir de abril de 2021, houve uma queda acentuada nas internações e mortes entre idosos.


Segundo estimativas dos pesquisadores:

  • 165 mil hospitalizações foram evitadas nos primeiros sete meses
  • 58 mil mortes de idosos deixaram de ocorrer nesse período


Ao final de um ano de campanha, o Brasil havia aplicado 339 milhões de doses, alcançando 84% da população. Especialistas calculam que a vacinação evitou:

  • 74% dos casos graves esperados
  • 82% das mortes previstas
  • Mais de 300 mil vidas salvas


O custo do atraso na vacinação

Apesar dos avanços, estudos apontam que o país poderia ter salvo ainda mais vidas. O próprio Observatório Covid-19 Brasil concluiu que:

  • 104 mil hospitalizações poderiam ter sido evitadas
  • 47 mil mortes de idosos não teriam ocorrido
    caso a vacinação tivesse começado antes.


Para Paola Falceta, vice-presidente da Associação de Vítimas e Familiares de Vítimas da Covid-19 (Avico), esses números têm rosto e nome. Sua mãe morreu em janeiro de 2021, antes de ter acesso à vacina.


“A maioria das pessoas queria se vacinar. Muitos morreram porque a vacina não chegou a tempo. Isso foi resultado de uma decisão política de não comprar e não negociar vacinas”, afirmou.


Estudos e críticas à gestão da pandemia

Uma pesquisa da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) foi ainda mais contundente: se o Brasil tivesse iniciado a vacinação 40 dias antes, na mesma data do Reino Unido, e combinado a campanha com medidas de proteção, até 400 mil mortes poderiam ter sido evitadas — mais da metade das cerca de 700 mil vítimas da covid-19 no país.


A CPI da Covid-19, realizada em 2021, também concluiu que houve uma escassez deliberada de vacinas, causada pela demora e recusa do governo federal em fechar contratos.


Um dos exemplos citados foi a proposta da Pfizer, feita em agosto de 2020, oferecendo 1,5 milhão de doses ainda naquele ano. O governo brasileiro não respondeu à oferta.


Responsabilizações e investigações

O relatório final da CPI recomendou o indiciamento de 68 pessoas, incluindo o então presidente Jair Bolsonaro e ex-ministros da Saúde. O pedido foi arquivado em 2022 pelo então procurador-geral da República, Augusto Aras.


No entanto, em 2024, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Flávio Dino determinou a abertura de um inquérito na Polícia Federal para apurar os fatos apontados pela CPI.


Memória, ciência e futuro

Cinco anos depois, a imagem de Mônica Calazans com o punho erguido segue como um lembrete poderoso: a ciência salva vidas, mas o tempo e as decisões políticas também custam caro.


Relembrar esse marco não é apenas um exercício de memória — é um alerta para que o país esteja mais preparado, mais rápido e mais responsável diante de futuras crises sanitárias.




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